![]() [Antologia]Dos clássicos aos modernos *Machado de AssisEntre os muitos méritos dos nossos livros nem sempre figura o da pureza da língua. Não é raro ver intercalados, em bom estilo, os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva frequência da língua francesa. Este ponto é objecto da divergência entre os nossos escritores. Divergência digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorância ou preguiça, outros há que os adoptam por princípio, ou antes por uma exageração de princípio. Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de Quinhentos é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há portanto certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham o direito de cidade. Mas se isto é um facto incontestável, e se é verdadeiro o princípio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão. * Escrito em 1872, este fragmento figura numa notícia crítica de livros brasileiros, publica :: 06/02/1998Sobre o Autor1839-1908. Poeta e romancista brasileiro, começou como tipógrafo até se guindar ao galerim dos maiores da literatura em língua portuguesa. Fundador da Academia Brasileira de Letras, [Joaquim Maria] Machado de Assis deixou vasta e diversificada obra. "Ress |
Textos de autores lusófonos sobre a língua portuguesa, de diferentes épocas. |